Assim como ocorre em muitas outras áreas profissionais, a inteligência artificial já está mudando tarefas que fazem parte da rotina dos escritórios: pesquisa, revisão de documentos, comparação de contratos e elaboração de primeiras versões de textos jurídicos. A discussão, portanto, começa a avançar para uma questão mais profunda: o que passa a diferenciar o trabalho do advogado quando parte dessas atividades pode ser realizada por uma ferramenta?
Esse foi um dos temas debatidos no painel “Advocacia sem Fronteiras: Perspectivas Internacionais sobre Habilitação, Mobilidade e Educação Continuada”, realizado em setembro, durante o Europe-Brazil Legal Summit, na Suíça. Representantes de diferentes países discutiram como inteligência artificial, internacionalização e formação continuada estão transformando a profissão.
Uma das ideias levantadas no encontro é que a tecnologia não elimina a importância do conhecimento jurídico, mas muda a forma como o valor do trabalho do advogado passa a ser percebido. Se o cliente já consegue chegar ao escritório com uma pesquisa ou uma minuta produzida por inteligência artificial, cabe ao advogado avaliar aquele material, identificar riscos e compreender as consequências jurídicas de cada decisão.
Quando produzir fica mais fácil, interpretar ganha importância
A inteligência artificial reduz o tempo necessário para pesquisar, revisar documentos e produzir peças. Essa transformação começa também a chegar aos modelos de negócios dos escritórios.
Segundo a Thomson Reuters, 71% dos profissionais jurídicos de departamentos internos esperam mudanças nos modelos comerciais dos escritórios. Com o avanço da IA, experiência, interpretação, estratégia e identificação de riscos ganham ainda mais importância.
Mais eficiência também traz novos riscos
A inteligência artificial pode produzir respostas convincentes que não são necessariamente corretas. No Direito, isso já resultou em peças com precedentes inexistentes, citações incorretas e informações inventadas pelas ferramentas.
Em agosto, a OAB Nacional, a Universidade de Stanford e o IDP reuniram profissionais para debater os impactos da IA na advocacia, incluindo os limites éticos do uso dessas ferramentas e a responsabilidade por eventuais erros.
Conferir fontes, interpretar informações e responder pelo trabalho entregue sempre fizeram parte da advocacia. A diferença é que agora uma ferramenta consegue produzir um erro com aparência de resposta correta em poucos segundos.
A inteligência artificial pode tornar parte do trabalho jurídico mais rápida e eficiente. Mas também pode tornar mais evidente aquilo que sempre foi mais difícil de automatizar: não apenas conhecer o Direito, mas saber interpretar, decidir e responder pelo uso desse conhecimento.


